No bairro do Politeama, em Salvador, a força da identidade baiana ganha forma através das mãos de Célia Regina Carneiro. Aos 65 anos, a artesã e professora transforma a cerâmica de alta temperatura em um manifesto de fé e cultura, consolidando uma trajetória que agora floresce em uma nova geração: seu filho, Tainã, que segue os passos da mãe na arte do barro.

De acordo com dados do SICAB (Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro), o cadastramento realizado para mapear e identificar os profissionais do setor aponta que o artesanato é movido por uma força majoritariamente feminina, que compõe mais de 75% da categoria. Esse mapeamento detalhado evidencia que o setor não é apenas um pilar cultural, mas um motor de emancipação econômica para milhares de mulheres. Sobre essa importância, o coordenador de Fomento ao Artesanato da Bahia, Weslen Moreira, afirma:

”No mês do Dia das Mães, é importante reconhecer a força das mulheres que sustentam o artesanato baiano. Mais de 75% dos artesãos da Bahia são mulheres que transformam tradição, cultura e trabalho manual em geração de renda e dignidade para suas famílias. A política pública contribui diretamente com esse ecossistema criativo, através de qualificações, cursos de precificação, técnicas de venda, marketing digital e orientações para comercialização na internet, além de possibilitar o escoamento dessa produção nas lojas físicas e digitais, feiras e festivais, fortalecendo a autonomia econômica dessas mulheres.”

A Coordenação de Fomento ao Artesanato da Bahia integra a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), órgão do Governo do Estado. Por meio do Artesanato da Bahia, a gestão estadual promove ações estruturantes que fortalecem a identidade cultural, ampliam oportunidades econômicas e garantem visibilidade aos artesãos e artesãs em todo o território baiano.

Para o secretário da Setre, Augusto Vasconcelos, o artesanato representa um elo entre cultura, trabalho e desenvolvimento social. ”O artesanato é uma expressão viva da identidade do povo baiano e, ao mesmo tempo, uma importante política de geração de renda. Quando o Governo do Estado investe na qualificação, na formalização e na abertura de mercados para os artesãos, estamos fortalecendo a economia criativa, valorizando saberes tradicionais e garantindo autonomia econômica, especialmente para milhares de mulheres que sustentam suas famílias através da arte.”

Especialista em peças que retratam orixás e elementos da cultura afro-baiana, Célia desenvolveu uma assinatura artística profundamente ligada à “cabeça”, símbolo de pensamento, guia e espiritualidade. Suas imagens, produzidas sob o rigor técnico da alta temperatura, são resultado de uma busca constante por identidade. ”Como mulher, mãe e preta, fui me formando artesã aos poucos, dando um significado maior à vida”, afirma. Para ela, o artesanato não é apenas um produto, mas uma história individual que carrega o aprendizado e a fé que sustentam o povo baiano.

Há cerca de dez anos, a trajetória de Célia encontrou um porto seguro no programa Artesanato da Bahia. A artesã destaca o acolhimento da equipe e a importância do suporte institucional para a categoria. ”O Centro de Artesanato me acolheu muito bem. É uma maneira do artesão não se sentir só ou desprotegido. Eles valorizam nosso trabalho e dão a visibilidade que todo artista precisa”, relatou.

Após observar o pioneirismo e os processos da mãe, Tainã encontrou sua própria voz na cerâmica, especializando-se no torno, enquanto Célia mantém a tradição da modelagem manual. ”Ele viu meus erros e pôde avaliar melhor o que iria fazer. Hoje, ele é um bom ceramista”, orgulha-se a mãe. Para ela, o maior ensinamento passado ao filho foi a sensibilidade pela vida e a paixão pela técnica, provando que a arte é um caminho de salvação e construção de futuro.

Como conselho para outras mães empreendedoras, Célia Regina reforça a necessidade de acreditar no próprio trabalho e buscar uma identidade autêntica. Ela também defende o incentivo às artes manuais para os jovens como alternativa ao excesso de tecnologia, preservando saberes ancestrais e mantendo viva a cultura baiana.

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