“Cola Comigo”: já no título, o convite que combina sedução e provocação, dá o tom leve do segundo disco da trilogia, iniciada em 2016 com “Assume Que Gosta”, em que o músico e compositor mineiro Matheus Brant mergulha na linguagem do pagode, renovando o gênero com reverência, mas também personalidade.

No primeiro disco da série, o estilo foi levado à praia do indie-rock, misturando a música brasileira nascida no subúrbio do Rio de Janeiro com guitarras e sintetizadores típicos da cena hipster inglesa – um aceno à volta do pagode, celebrado agora no descolado circuito jovem de classe-média brasileira. Em “Cola Comigo”, Matheus vai além. Vai em busca de uma comunicação direta e com um público maior. Sem artifícios e adornos, e de cara limpa – como visto na foto de capa clicada por Jorge Bispo.

Com direção artística de César Lacerda (que também toca violão tenor e flauta) e produção musical de Fábio Piczowski (violões), o disco foi gravado ao vivo no Estúdio 12 Dólares em São Paulo e reuniu um elenco de primeira grandeza da música brasileira: nas percussões, Os Capoeira (Felipe Roseno, Mestre Da Lua, Cauê Silva), nos violões e cavaquinho, Rodrigo Campello, no baixo elétrico, Robinho Tavares, nos teclados e piano, Danilo Andrade, no lap steel, João Erbetta, no coro feminino, Luiza Lian e Anaïs Sylla, no naipe de sopros, Marcelo Freitas, Paulinho Viveiro e Jaziel Gomes. A musicalidade plural e pulsante do encontro de músicos com trajetórias e bagagens tão distintas, faz o disco passear, com capricho impecável, por ritmos brasileiros os mais diversos. O trabalho primoroso nos relembra com beleza a grandeza da música feita no Brasil.

Matheus Brant, além de músico e compositor, é também advogado e escritor (“A música e o vazio no Trabalho – Reflexões jurídicas a partir de Hannah Arendt”, 2014). A facilidade com que transita por temáticas e personagens em suas composições é fruto da sua personalidade criativa e de uma caneta versátil.

Criador do bloco “Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro” em 2014, no renascido e vigoroso carnaval de rua de Belo Horizonte, Matheus adensou o seu contato com a efervescente cena musical mineira, moldando o seu repertório para o universo do pagode. Ao lado de compositores como Thiago Delegado, Vinicius Ribeiro, Nath Rodrigues, Lucas Fainblat e Natália Matos, construiu um rico setlist com temáticas que refletem as relações amorosas em tempo de hiperconectividade (“Cola Comigo” e “Doce Feroz”), o feminismo (“Juntos”, cantada em dueto com Thais Macedo), a igualdade de gênero (“Tudo No Menu” e “Não Erra”), e o amor romântico (“A Minha Maneira de te Amar”, “Preta” e “Chamego Gostoso”).

Em “Assume que Gosta”, Brant reinterpretou o hit “Abandonado”, do grupo Exaltasamba. Neste, a regravação foi de “Supera”, do grupo Alô Som e que ficou famosa na voz do cantor Belo. Para fechar o repertório, “Majestade”, samba inédito da dupla Romulo Fróes e César Lacerda.

“Cola Comigo” reflete com leveza e simpatia o cisma que tenta dividir a música do Brasil entre boa e ruim: “Sabemos o que é mais ou menos sofisticado, ou sabemos a diferença entre versos mais simples ou mais elaborados, mas isso não pode resultar em uma consideração positiva ou negativa sobre um gênero musical, da qualidade da obra”, reflete Matheus. “Sempre procuro enxergar beleza em todos os gêneros musicais. Como diz o poeta Paul Valery: ‘O gosto é feito de mil desgostos’”, encerra.